O Festival de Parintins
A pacata cidade transfigura-se anualmente para abrigar uma festa espetacular: o festival dos Bois-Bumbás. O festival acontece no último fim de semana do mês de Junho, e organiza-se em torno da competição entre dois grupos: Boi Garantido, boi branco com o coração vermelho na testa, cujas cores emblemáticas são o vermelho e o branco; e Boi Caprichoso, boi preto com a estrela azul na testa, cujas cores são o preto e o azul.
Esse festival alcançou nos últimos anos dimensões massivas, conjugando, de modo inesperado e criativo, padrões e temas culturais tradicionais a procedimentos e abordagens modernizantes. É hoje uma das grandes manifestações populares do Norte do Brasil, atraindo milhares de pessoas não só de Manaus e cidades próximas, como de diversas partes do país. Nos anos recentes, essa brincadeira do boi foi eleita como bandeira de uma identidade cultural regional. Esse alcance, a tensa relação estabelecida entre permanência e mudança, bem como a beleza artística dos Bumbás de Parintins suscitam o interesse pela análise de seu sentido cultural profundo.
Seu estudo traz também questões amplas para a análise da cultura e dos rituais. Na evolução recente do Bumbá de Parintins, ressalta-se a participação da mídia, da indústria cultural e do turismo, de agências governamentais e amplas camadas sociais numa festa que mantém fortes características tradicionais. No viés romântico de análise, a cultura popular é freqüentemente o abrigo nostálgico de um mundo harmonioso, ameaçado pela época moderna. Nessa perspectiva, festas espetaculares e comercializadas tendem a ser vistas como deturpações de uma autenticidade original. A abordagem aqui proposta vê, ao contrário, a evolução do Bumbá, à semelhança do desfile carnavalesco das escolas de samba cariocas, como um exemplo extraordinário da capacidade de transformação e da atualidade da cultura popular no Brasil (Cavalcanti, 1999, 1994).
Para tanto, nosso ponto de partida é uma perspectiva antropológica centrada no estudo dos rituais.1 O objeto é a festa entendida como um fato social total (Mauss, 1978), tal como hoje se expressa, com sua intensa capacidade de integração cultural e com os problemas e contradições inerentes à sua expansão. O Bumbá de Parintins é um processo ritual amplo, articulando diferentes níveis e dimensões de cultura e acompanhando no tempo o movimento da sociedade que o promove. Formas artísticas, grupos e camadas sociais diferenciados nele interagem. É mais um dos fascinantes lugares de tensa e intensa troca cultural, tão característicos da cultura brasileira.
O universo simbólico do Bumbá é, entretanto, denso e sutil como uma floresta. O Boi-Bumbá, ou simplesmente o Bumbá, de Parintins é uma entre as diversas formas da brincadeira do boi, cuja história no país remonta a meados do século XIX. Essa continuidade histórica implica significações e ressignificações permanentes, pontos de ruptura e alterações de contexto e de sentido que interessam à pesquisa apreender.
Pedindo licença para adentrá-lo, teço inicialmente algumas considerações sobre o estudo e a história do folguedo no Brasil. Empreendo em seguida uma etnografia do festival de Parintins. Sugiro, finalmente, a interpretação do Bumbá de Parintins como um novo nativismo que, ao valorizar as raízes regionais indígenas, afirma positivamente uma identidade cultural cabocla.
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